The bottom to the top

Por vezes, somos possuídos pela falsa sensação da estabilidade. Os dias se passam como devem passar, os objetos estão novamente guardados numa caixinha de papelão e a sala de estar se organiza, tudo na mais perfeita harmonia. Você adiciona um abismo a dois palmos dos pés e ali se mantém, imóvel e, ironicamente, se sente seguro. O espaço entre você e o mar já são suficientes para que as ondas não te atinjam mais.
Mas, quando as pecinhas da vida resolvem brincar, te colocam numa mesma cena, quase um déjà vu. Você percebe que a vil tentativa da distância nem sempre é o suficiente. A difícil tarefa de caminhar pela beirada sem olhar para a água se torna ainda mais árdua. Embora, a profundeza do rio esconda coisas boas, extremamente boas, agradáveis e acolhedoras de uma forma não vista antes, ela também pode te afogar, pode puxar cada vez mais para o fundo. A ideia do risco é contagiosa, a vontade de mergulhar também. A ideia do controle é tão utópica que não há nada que conste no manual.
Quando as tarefas ficam empilhadas na estante da razão, o fardo se torna pesado, a cabeça fica cheia, a tempestade de pensamentos se torna monstruosa, tudo é levado pelos ares, um tornado, uma tromba d'água. Tudo prestes explodir, apenas para que a construção seja refeita e a calmaria se torne única e prevaleça.
Uma disputa interna, uma briga, uma guerra, uma mente que se divide, azul e vermelho. A confusão é clara, o motivo é que se mantém ainda apagado, gostar demais pelo que é, ser golpeado pelo que fez. Tentar balancear, diminuir o número de incógnitas e abrir um vão para que o conformismo venha a tona.
Mas, basta só uma oportunidade, apenas uma, de estar de fronte ao quebra-cabeça, para que tudo se confunda e que aquelas regras morais, aquelas leis que a gente se autoaplica venham abaixo, caiam em desuso. Nesse momento surge a dúvida, o medo, pois, já não é mais uma variação do mesmo tema, dessa vez é diferente, a ponto de te tirar o norte.  
Não existe uma loja que venda um mapa, desses com a melhor rota, com o melhor caminho. Da última vez que solicitei algo do tipo, extraviaram o pacote no momento da entrega. Novamente voltei para o início, procurando um lugar novo, um portão, uma entrada, mas só havia buracos no muro, nos quais eu me aproximava, dando uma espiadinha para ver o que o outro lado guardava.

As vezes é preciso traçar um novo caminho, dar um jeito, remendar. Apenas enquanto as respostas não vem a tona. E assim continuará a pairar aquele clima de dúvida. Você sabe onde quer ir, mas você não sabe como. Você olha e projeta, mas não põe em prática. Você escreve, mas não declama. Você continua sendo apenas você.

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