Voltamos do intervalo, temos um ouvinte. 

Vamos lá, não é difícil, interaja, diga olá e tudo estará disposto, portas abertas, esse é o mundo.

Silêncio na linha. 

Bom, tem uma garota, ela mora do outro lado...

Eu queria falar algumas coisas, mas meu arsenal de palavras fica guardado bem fundo. Eu cavaria, porém, o sedativo que circula nessa prisão orgânica ainda é forte. Há sempre um grito mastigado pela força do hábito, engolido pelo passar das horas e digerido pelo amanhã. 

Mas, hoje eu peguei um lenço vermelho, absorvi a energia de um rebelde, apreciei o sentimento bom daquela que entrega uma flor ao inimigo, arrepiei junto com o cara de quarenta e tantos que subiu no palco e cantou sua música da vida. Hoje sentei sobre meus calcanhares, afogado pelo sol e em um breve momento de pura apreciação, senti o calor a mim transmitido, agindo como combustível para a sucessão pensamentos.

Eu queria não sonhar, mas, não tenho culpa se no fechar dos olhos, inspirações surgem e me falam coisas que a realidade aparenta não permitir. 

Eu queria pensar em alguém apenas na medida certa, mas, não tenho culpa se a presença foi notada e o nome anotado em uma lista de prioridades.

...Bom, tem uma garota, eu queria que ela morasse desse lado.

Espectadores, sorriam, era pra ser uma declaração de amor.





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