Desastre natural
Das possibilidades que o cotidiano oferece, algumas particularidades são extremamente interessantes. Nesta incessante busca pelo melhor, seja felicidade, sucesso, afeto ou o que quer que cada um considere como fundamental, algumas anotações são feitas.
Frases, diálogos ou ideias. Na folha, vento ou pensamento.
Desgosto e falta de objetividade no decorrer de um período de irresponsabilidades são, em seu conjunto, capazes de garimpar um vazio a ser preenchido por uma pedra rara, a satisfação, obtida apenas em locais remotos, que variam na individualidade daqueles que a anseiam.
Alguém talvez saiba, não sou de me perder em autoajuda barata ou marketing de palco, mas tenho minhas estrategias para estar sempre animado.
"Animação" é eufemismo, simplifica a explicação.
Acontece que já não há mais felicidade ou tristeza. Estou bem, é claro, mas falta conteúdo e, obviamente, sobra vazio, sempre sobrou. Ontem, escondia na hora da fotografia e, dessa forma, dobrava facilmente os desavisados. Eu era um desavisado.
O que realmente acontece é que perdi um pouco do brilho no olhar. Passei a fazer coisas mecanicamente. Embora algumas dores tenham surgido, são apenas dores físicas, sem força.
É o fim de mais uma temporada.
Há animação. Há o que ser feito.
Mas já não existe a mesma poesia em apontar a efemeridade daquilo que defini como "tudo". Se me perguntarem, direi -sem nenhuma hesitação- que não sou triste, entretanto, perderei alguns minutos tentando entender se sou feliz. O motivo é que, talvez, eu tenha esquecido o conceito.
Estou no ponto de espera, dou a bandeirada para que a rotina comece. Ostento uma face de tranquilidade, ritmando meus pés com o bumbo que marcha no ouvido esquerdo. O piano, do lado direito, me orienta rumo às famosas sequências de pensamento. Inflama-se a ideia de mais um dia normal, dentro de uma semana mediana. Já não é suficiente.
Então, a máquina se materializa ao longe, imponente e lotada de almas, algumas vazias, algumas com sonhos paralelos aos meus, mas, em sua grande maioria, apenas seguem o passo imposto pelo sistema. Não as culpo.
Sigo a indagar questões de cunho não tão filosófico, me privo a recorrentes sufocações banais. Alimento certa aversão à metodologia do homem moderno, não tão moderno assim. Esboçado desde os primórdios da luta de classes, conformado aos moldes da industrialização, amamentado pelo capitalismo, ele é símbolo de força, sucesso, é viril e incansável. O pássaro de colarinho branco é disposto a tudo, submisso ao sonho de colaborar com a corporação, de produzir, de exaurir, ele encaixa sua mente na forma da mediocridade, fecha seus olhos à questões sociais e rema.
Essa roboticidade, os dentes de porcelana, o tapa nas costas, o aspecto cortês, os apoios mútuos, a conquista de falsa confiança, a masturbação de ego alheio, tudo me causa náusea.
Esse lugar é perigoso demais. Perigoso mesmo!
Naquele dia, entrei por uma porta estreita. Lembro que os seguranças não fizeram revista, apenas pediram que eu balbuciasse algumas palavras, não entendi bem, apenas segui a ordem. O corredor que se segue é estreito, grades em ambos os lados.
O visual não é receptivo, uma balada meio futurista, olhares intimidadores, contato físico, ombro no ombro, porém, infelizmente, dizem que o receio se estende além dos primeiros goles de um daqueles drinques coloridos. Eu sinto o medo e vejo o medo, mas eu não sei a origem. Há quem culpe a cor do couro usado. Há quem defenda o uso de um modelo clássico. Há quem repudie a livre escolha. Há intercessões entre esses grupos.
Não há pista de dança. Não há dança. Mas há vozes.
O barulho era excessivo e ecoava por todos os cantos. Não houve projeto, tampouco engenheiro de som. Apenas jogaram todos, entregam megafones, fecharam e nos deixaram a gritar.
Era tanto ruído que, já nos primeiros minutos, eu sentia a dificuldade no ato de pensar. Analisando o entorno, percebia que não havia pensamento, julgamento, razão. Cada grito era apenas uma repetição daquilo que chegava estranho ao ouvido, a representação de um eco mastigado e sem gosto, como uma alimentação sem nutrientes, mas que enganava e parecia suprir as necessidades. Existiam alguns sons que possuíam uma carga atrativa, pois se assemelhavam ao barulho das sirenes que costumavam tocar em horas redondas, eram esses os preferidos na mímica vocal.
Preferi caminhar, tentar entender. Nos meus passos, ouvi conversas. Dizem alguns que, antigamente, existia uma ordem maior. Dizem que era bom porque as vozes de opressão funcionavam positivamente. Porém, ouvi de outra fonte segura, de uma das poucas vozes racionais dos dias de hoje, que esses, os que dizem tanto, tiveram ideias implantadas, que foram sedados e expostos a um mundo pequeno demais para que soubessem o que acontecia de verdade.
Porém, quando nuvens se fazem negras, a maré se torna uma resistência autoimposta, estampa-se a previsão da pior viagem. A própria natureza da existência é contrária. Na embarcação pessoal, tripula o descaso dissolvido no medo.
Não se vê a necessidade de agir quando a neutralidade persuade e se faz suficiente. A névoa esconde.
Não é tarde para acordar, olhar para os lados, enxergar os sucessivos quadros de um mundo em movimento. Nem tarde para analisar a bagagem, retirar as peças velhas, adicionar uns itens, fechar tudo e escrever seu nome com letras universais.
Talvez seja cedo para desistir, nós temos o tempo, eles tem a oportunidade. Vamos escrever um livro, um livro acessível, traçando as curvas do novo mundo, com abandono de falsos preceitos, pegada madura, um banho de empatia. O mundo precisa do "nós", porém o "nós" precisa de preparo.
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