Querendo deixar as dúvidas soltas à interpretação do réu, foram borradas as letras e amassado o papel.
Numa tarde chuvosa em que o vidro não se abriu, o viajante arrancou, sem chances de caça.
"Não siga aquele carro, marcha-ré para a solitude, rumo aos confins da própria amargura, longe do contato vital."

E foi-se sem vida. Sem sopros de bem ou mal. 
Apenas a janela embaçada. Umidade gerada pela própria respiração, criando o quadro onde se anotam as tristezas insólitas, mas que escorrem e formam o retrato do escárnio sofrido. 
Se a fagulha surgisse aqui nessa sala, nesse ambiente inflamável, repleto de arbitrariedade e banhado pela atmosfera criada aos moldes de um golpe inesperado, se incendiaria aquilo que não é capaz de se auto-preservar, que vive cada vez mais ao saborear o próprio carma. 
Um chute perfeito que ricocheteia nos reflexos do dia-a-dia e sai a bumeranguear em torno do amontoado de lembranças empoeiradas, cobertas por uma peça de cetim. 
Os vasos caem impulsionados pela inesperada e fria corrente de ar, o som não assusta tanto quanto a imagem das cinzas carregadas, se espalhando e se organizando perfeitamente, de modo a dizer que há de ser o fim, apenas o sinal do recomeço. 

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