Eterna insatisfação

A busca não cessa. Eu ainda não sei o ponto. Meus motivos não são motivos e minhas obras tem sido vistas apenas por falsos poetas e falsos ouvintes.

Hoje vejo você subindo em uma sala escura. Mais alto. Mais alto. Mais. Alto.

Claro, era necessária uma razão para viver. Era obrigatória essa nova batida que te faz sentir vivo. Você nem mesmo conhece o rosto de quem vibra ao lado. Você não reconhece os traços por trás da fumaça. Serotonina, Dopamina e Noradrenalina. Quando chão for chão, não haverá história para ser contada.

Cegos pela tendência, sentaremos em torno da fogueira, mãos dadas sem o tocar, nutridos com esse fogo que não emite calor algum. Agitando o canhão de luz especial, que parece ter sido feito por encomenda, mas sabe-se lá quantos encomendaram. Eu apenas sei que não ilumina céu algum. Para você não existe céu ou universo. Não existe um lugar para olhar além. Não existe um solo para semear as dúvidas. Você já não senta na grama molhada e enche seu caderno com perguntas, pois alguém já lhe ditou o verso, com palavras claras. Alguém já escreveu o teu próprio livro. Siga a caminhar, folha 59, folha 60, não importa qual seja, o importante é pisar, pisar, pisar. Marcas que se apagam.



Eu não quero o hype.

Eu vivo por um grito que faça pelo menos uma membrana vibrar. Eu vivo por um passo que faça pelo menos uma alma verdadeira querer trilhar. Eu vivo por uma construção que seja habitável, inclusive por mim. Por algo que seja mutável, que imploda e expanda em diferentes nuances, que monte diferentes quebra-cabeças, mas que mantenha uma base racional, que cheire a empatia, que faça questionar, que se faça admirável, que faça abandonar a selfie nos momentos de ação ou contemplação verdadeira, que faça problematizar sem holofotes e resolver sem pretensões financeiras.



Tenho caminhado, não é recente. Já fui homem de promessas, ajoelhei-me.

Quando estivemos juntos, fomos um só. A voz que questiona. A sirene que avisa. A boa vontade. O colocar-se no lugar de outrem. Mas e a carta dentro da garrafa? O presente dentro da meia? A estrela cadente dos momentos oportunos? Fui o único a ler, tocar, perceber. Sou testemunha de mim mesmo num julgamento sem fim. É uma razão fraca, é uma razão superficial, é uma razão que tem instigado o ódio entre diferentes credos. É um ponto que se tornou insuficiente, que se apaga.


Hoje canto em notas menores. Sento acompanhado da minha própria presença. Apago e refaço a minha sombra, dia após dia. Sinto a água, ruído branco que aquieta o meu entorno, amplifica o meu interno, transforma o meio e faz a semente crescer mais rápido. Eu abro os olhos e respiro um ar diferente.

Não vou negar, sigo errante, hipócrita. Faço-me crítico em filmes que não estão em cartaz. Porém, olhe você para todos os lados, náufrago em ilhas de decadência e falta de vida.


Taxidermia cultural. Arranque a cabeça do animal e tudo que verá é palha. É isso que eles querem de nós, apenas pseudo-bandos. A ilusão da partilha nos desmonta como sociedade, nos faz decrescer como organismo comum. É o estar sozinho coletivamente. A fórmula mágica para todas as frustrações. A linha entre o amor e ódio. Deixe seu like. Pegue seu copo. Sintetizado ou natural? Compre um livro de autoajuda e fixe-o na cabeceira da cama. Doe seus bens.

Estamos sedados demais para procurar o ponto.

Acima de tudo, não são sacos de pancada, é uma crítica pessoal. A luta interna não deve ultrapassar a barreira do eu, mas precisa existir como chama precursora.



Eterna insatisfação.

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